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08 - XLVIII - ' Só o ter flores '



Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste,
E vivamos assim,

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
Scolhermos do que fomos
O melhor para lembrar

Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal

Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.


RICARDO REIS


16 de Junho de 1914


Ricardo Reis (1888 - 1939)
é um dos três heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Nascido na cidade do Porto. Estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente desde 1919, indo viver no Brasil. Era latinista e semi-helenista.

A poesia de Ricardo Reis é constituída com bases em ideias elevadas e odes, ou seja, na poesia de Reis é constante o Neoclassicismo. Para finalizar, podemos concluir que através da intemporalidade das suas preocupações, a angústia da brevidade da vida, a inevitável Morte e a interminável busca de estratégias de limitação do sofrimento que caracteriza a vida humana, Reis tenta iludir o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida.

Temáticas:

Faz o elogio do epicurismo e do estoicismo (busca de uma felicidade relativa, mista de resignação e moderado gozo de prazeres);
Aceita a calma da ordem das coisas;
Sofre com as ameaças do Fatum, da velhice e da Morte;
Vê o rio como uma imagem da vida que passa – efemeridade;
Considera a infância a idade ideal;
Defende o ideal de uma vida passiva e silenciosa;
Preconiza a carência das ideias dogmáticas e filosóficas como meio de manter-se puro e sossegado;
Opõe o paganismo ao cristianismo;
Estilo/ Linguagem:

Características da estética clássica;

Vocabulário: óbolo, barqueiro, sombra e rio;
Mitologia: Fatum;
Sintaxe da frase: hipérbato.
Verbos no Gerúndio, Imperativo, Conjuntivo.

(Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre)

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