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41 - Num Meio Dia de Primavera
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'Cristo Crucificado' - c 1632 - Diego Velazquez


VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
.............................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......................................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.....................................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Alberto Caeiro


O divino e o demônico em “O guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro

por moises.junior
Natanael Gabriel da Silva

Só a Natureza é divina, e ela não é divina...

Resumo

O autor estuda o poema O guardador de rebanhos de Fernando Pessoa sob o pseudônimo de Alberto Caeiro. Observa nessa obra a angústia de quem guarda pensamentos que se dispersam. Relaciona-o com Nietzsche quando descobre a falta de consistência do discurso teológico de sua época. Esse discurso baseava-se numa forma de pensar Deus ainda presa à metafísica. Era preciso ir além dela. Parecia não haver saída: ou “Deus morre” ou ele é “outra coisa”, o que daria no mesmo. Ou Deus estava morto ou a dimensão da compreensão humana havia criado um Deus que não era Deus. O autor relaciona o poema de Fernando Pessoa com o pensamento de Paul Tillich.

Palavras-chave: Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Nietzsche, morte de Deus, Tillich.

Abstract

The author studies the poem, O guardador de rebanhos, by Fernando Pessoa, under the pseudonym of Alberto Caeiro. He observes in this book the description of the anxiety of the keeper of thoughts which are being lost. He relates it with Nietzsche´s discovery of the lack of consistency in the theological discourses of his time. They depended on a form of thinking still dominated by Metaphysics. One should go beyond it. It seemed that there was no way out: or “God dies” or he is “another thing”, which ended up in the same idea. God was dead or our human understanding had created a God who was not God. The author relates the poem of Fernando Pessoa with Paul Tillich thinking.

Key-words: Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Nietzsche, death of God, Tillich.

Notas Introdutórias

Alberto Caeiro é um personagem, dentre tantos, das expressões poéticas de Fernando Pessoa (1888-1935). Segundo Nelly Novaes Coelho, o olhar sobre a obra de Fernando Pessoa deve-se dar pela ótica da poesia da existência compreendendo Caeiro como um poeta ingênuo, que procurava viver as coisas como elas se apresentavam. Por outro lado, Álvaro de Campos, outro personagem de Fernando Pessoa, em um “diálogo” com Alberto Caeiro, diz ser este a corporificação do paganismo:

O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o Antonio Moura é um pagão, eu sou um pagão; o próprio Fernando Pessoa seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro. Mas o Ricardo Reis é um pagão por caráter, o Antonio Mora é um pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação. Podemos entender que há tanto de existencialismo quanto do divino-demonônico na obra de Caeiro, uma vez que não são excludentes. A questão seria tentar entender em que sentido este postulado existencialista e poético poderia eclodir numa objetivação naturalista. Ainda: até que ponto não estaria Caeiro analisando o demônico a partir dos símbolos cristãos e declarando-os insuficientes para sustentar o próprio conteúdo? Se a questão tiver como foco uma análise mais abrangente da obra de Fernando Pessoa, poderia ser assim formulada: seria possível identificar a ambigüidade entre o divino e o demônico como conflito existencial nos personagens de sua criação poética?

É claro que na extensão do nosso trabalho não há uma proposta de responder a todas estas questões. Contudo é importante compreender o que Nelly Novaes Coelho identificou como a crise da modernidade no pensamento e poética de Fernando Pessoa. Para ela havia uma busca plural, um encontro de “eus” na relação da forma de conhecer e demonstrar o mundo, que se manifestava singularmente naquele período. Diz: No afã de multiplicar as latentes possibilidades dessas relações essenciais, é de se compreender que a multiplicação das personalidades poéticas tivessem surgido como um recurso valiosíssimo. [..] Tantos “sujeitos” quantas “realidades”. Ou seja, não seria possível uma mesma pessoa proceder as múltiplas leituras do mundo, uma vez que este não poderia se destacar de si. Uma relação existencial “honesta” implicaria na impossibilidade de leitores “existenciais” múltiplos. Se isto estiver certo, e se for possível identificar uma ontologia existencial na obra de Pessoa, a dimensão eu-mundo apresentada por Tillich, estaria, de certo modo, num estado de rompimento. A questão a ser estudada poderia ser a possibilidade desta multiplicidade existencial sem que o eu-mundo não se perdesse. Ao que parece, sob a hermenêutica existencial, não seria possível outras existências de um único eu.

Isto seria o mesmo que compreender a possibilidade da ruptura do eu centrado.Contudo, a criatividade, a liberdade poética, a honestidade com os sentimentos profundos, podem ser considerados apenas símbolos de um estado de angústia existencial, que não implique necessariamente no problema de ruptura na centralização do eu. Talvez tenha sido por esta razão que Nelly Novaes Coelho encontrou uma convergência existencial que, de certo modo, suporta uma certa ambigüidade, dependendo da dimensão que se possa dar ao termo “existencial”.

I

O Guardador de Rebanhos guarda pensamentos, que são sensações. O símbolo do rebanho é a representação do limite da existência humana, onde reside a liberdade. O que possui rastros do religioso torna-se demônico. O símbolo rompe a angústia da separação e busca na dimensão do divino, o divino que se rompera. O discurso demônico se eleva e “liberta” o divino.

Caeiro é um pastor de pensamentos que incomoda. Minha alma é como um pastor [...]Pensar incomoda como andar à chuva. Possui um cajado nas mãos e no rebanho se seus pensamentos, ou nos pensamentos de seu rebanho, encontra os seus versos na sinceridade da alma. Sinto um cajado nas mãos [...] Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias, Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho. Não acredita em metafísica, não pela falta, mas pelo excesso que não deu conta de seu próprio sentido. Há metafísica bastante em não pensar em nada. O mistério, é pensar que existe um mistério: O único mistério é haver quem pense no mistério. Não existe uma substância que constitui as coisas intimamente, e não existe um sentido íntimo do Universo. Tudo é falso, tudo isto não quer dizer nada. Caeiro gostaria de crer, mas sua honestidade para com as emoções e o pensamento não permitem. Quando os relâmpagos sacudiam o ar [...] Pus-me a rezar a Santa Bárbara Como se eu fosse a velha tia de alguém.[...] Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara.... Ah, poder crer em Santa Bárbara!

Caeiro não acredita em Deus, declara nunca tê-lo visto: Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou!Deus poderia ser as flores e as árvores, assim Caeiro acreditaria nele: Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol, Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;[...] Pensar em Deus é desobedecer a Deus, Porque Deus quis que não o conhecêssemos, Por isso nos não mostrou...

Ao que parece Caeiro desejava o que não poderia, uma angustia existencial, possivelmente não ontológica como conceituou Heidegger, mas também não muito longe disto. A angústia poderia ser compreendida como a ausência de categorias que pudessem indicar a possibilidade do divino, uma espécie de ausência hermenêutica. Para Caeiro tudo está tomado pelo demônico, Deus não é possível, ao ser possível deixa de ser Deus e assume a dimensão do demônico: um Deus elevado à dimensão de Deus. Não há metafísica, não há natureza, só os pensamentos são livres. A ruptura pela ameaça do demônico conduz a uma única possibilidade: afastar Deus é melhor que concebê-lo. Qualquer dimensão autoritária que dê um sentido único à possibilidade de Deus, não é suficiente.

II
Para fins do nosso trabalho, torna-se necessária a transcrição de parte do poema, particularmente quando trata de alguns símbolos centrais da teologia, principalmente o problema cristológico.

VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.


Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.


E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.


Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.


Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.


Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.


Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Para Caeiro não pode haver divindade em Jesus, mas humanidade. Ele fora nosso, fazendo-se criança para arrancar flores. Era feliz. O que é o céu? Só pode ser falso. No céu falta a alegria, há sofrimento, há falta de humanidade. Jesus não pode, historicamente, representar o divino, pois seria demônico, tornado ídolo e sem vida. A cristandade o transformara assim. A metafísica conseguira no máximo isto. Contudo, “O Guardador de Rebanhos”, a metáfora poética, iria libertar o “divino” de sua prisão metafísica. Deus não poderia libertar-se ou liberar Jesus. Está aprisionado pela inconsistência teológica que não é capaz de compreender o que Ele “faz” no “céu”. Questões simples, como “quem Deus de fato é”, “quem Maria de fato é” e ainda “quem ou o quê o Espírito Santo de fato é”. O pensamento pode pensar qualquer coisa, está livre, só não pode suportar a transformação do lógos cristão no demônico, elevando-o à condição divina. “Deus”, “Maria” e o “Espírito Santo”, poderiam ficar por “lá”. São sustentados por uma heteronomia, mas que não fazem diferença, não podem ser explicados, e não possuem “lugar” no mundo.

Nem mesmo o símbolo cristão da paternidade de Deus em relação a Jesus poderia sustentá-lo como divino, sem torná-lo demônico. Jesus, para Caeiro, não tinha um pai, tinha dois e não tinha nenhum. Na mesma direção, o simbólico da maternidade. Sua mãe não tinha vida, não era pessoa, fora uma “mala”, só servira para isto. A o símbolo da perspectiva da presença divina, o Espírito Santo, também não fora suficiente. Este, como pomba, não simbolizava nada, ficava voando se coçando com o bico. Não poderia ser uma coisa simbolizado por algo que não indicasse o que de fato era, porque ao mesmo tempo não era do mundo e portanto, não poderia ser pomba, e não era pomba porque era outra coisa.

Assim o demônico do discurso metafísico cristológico deveria ser rejeitado. Só faria sentido se fosse libertado pela poesia, que o traria de volta para ser comum. Jesus torna-se assim puramente humano. O pensamento o liberta. “O Guardador de Rebanhos” o traz como pensamento e poesia e como criança o visita num meio dia de primavera. Para deixar de ser demônico, vive na aldeia, ri muito e é natural, como uma criança qualquer. Faz de tudo o que existencialmente uma criança deve fazer.

O discurso teológico, pelo viés da metafísica e retratado na prática religiosa, para Caeiro, é uma expressão simbólica da impossibilidade de se aprisionar Deus no sistema sem que o próprio Deus se torne demônico. Para ser Deus, precisaria ser “outra coisa”. [Jesus] Diz-me muito mal de Deus. Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão E a dizer indecências. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

III
Para Tillich o demônico não nega o divino, mas o distorce, dando ao que tenha uma particularidade de santidade como o próprio sagrado, do que é finito como infinitude. Há uma eliminação da liberdade da centralidade por meio da ruptura demônica: The freedom of centredness is removed by the demonic split.. Ou seja, o demônico se mostra como um tentativa de superação da ambigüidade mediante um dogma, uma restrição, uma imposição, uma elevação que torna o sentido de revelação e salvação demônicas: ...but that under the conditions of existence even the absolutely great – the divine self-manifestation-becomes not only great also small, no only divine but also demoniac.

Ao estudarmos a dimensão divino-demônica em Alberto Caeiro, a partir de “O Guardador de Rebanhos” haveria possibilidade de se fazer pelo seu paganismo, ou pelo viés dos temas por ele questionados no que diz respeito ao seu conteúdo, ou ainda a partir do que poderia ser o seu método ou perspectiva hermenêutica na observação do fenômeno religioso: a liberdade do pensamento incontido que o remete ao paganismo.

Assumindo uma discussão somente a partir dos temas (Cristo, Deus, Maria, Espírito Santo, Céu) apresentados por Caeiro em “O Guardador de Rebanhos” seria necessária uma abordagem que levasse em conta o discurso poético como possibilidade de leitura dos símbolos religiosos e a poética como forma adequada do tratamento destes símbolos. Como Paul Tillich teria observado esta possibilidade? Em outras palavras haveria alguma diferença entre a linguagem poética e a linguagem religiosa quando se aproximam de determinados “conteúdos”, mesmo em se tratando de natureza simbólica? Qual seria o espaço da expressão poética na linguagem artística para Paul Tillich?

Paul Tillich identifica a linguagem artística, e outras formas de expressão, como tentativa de superar o abismo entre a teoria e realidade, entre o sujeito e o objeto. Neste processo de relação e oscilação, entre a realidade e a irrealidade, reside o caráter ambíguo da função estética: The ambiguity of the aesthetic function is its oscillation between reality and unreality. Na linguagem poética, como linguagem artística, Tillich diz que sua forma de expressão é pelo símbolo, mas não como utilizado pela linguagem religiosa. A linguagem poética é traduzida em “imagens sensoriais”, dirigidas aos sentidos e por estes “decifradas”. Em razão disto, apontam para uma dimensão do ser (os sentidos), e não a totalidade do ser em preocupação última. Esta diferença se dá mesmo quando a linguagem poética utiliza como referenciais de comunicação os mesmos objetos da experiência religiosa.

Considerada por esta perspectiva, a linguagem poética e a religiosa se distanciariam de forma irreconciliável. Diz Tillich: Again, the confusion of these kinds of language (the poetic with the relgious and the technical with the poetic) is prohibitive for understanding the functions of the spirit to which both belong. É claro que isto praticamente encerraria uma possibilidade de relação entre qualquer trabalho poético e o pensamento de Tillich, uma vez que a poética é uma forma de se dizer o que está colocado na dimensão sensorial, existencial do ser humano, e não sob a perspectiva transcedental que é o “objeto” dos símbolos religiosos.

Contudo isto seria restringir demais a leitura que Tillich faz da poética, o que parece não ser adequado. Seria sobrepor a forma tanto ao assunto como também à substância da criatividadecultural, o que também Tillich procura distinguir. Neste caso o que deve ser discutido não é a forma poética como “validação” e possibilidade da leitura dos símbolos cristãos, mas a relação da existência, tomado no seu sentido ontológico, diante da construção teológica “objetiva” do dogma, seja no sentido metafísico escolástico, seja no sentido literalista e positivista protestante diante da heteronomia da “revelação”. Em outras palavras, o pensamento livre do poeta não pode conter as aberrações criadas pelo sistema teológico, divinizando o que não pode ser divinizado, secularizando o que não pode ser secularizado, até por desconhecimento em face do abismo entre o supostamente “humano” com o supostamente “divino”. Creio que é a partir disto que podemos estudar o “paganismo” de Caeiro como resposta e resistência ao “demônico” dos símbolos cristãos. Ou seja, tomados pela perspectiva da hermenêutica de Tillich sobre o divino-demônico, só o “paganismo” poderia ser a resposta “teológica”. Contudo, não se trata de um “paganismo” de negação, como se fosse um “ateísmo”, mas de ruptura de irreconciliação entre as elaborações e construções cristãs sobre os seus símbolos e a negação pelos seus próprios enunciados.

IV
“O Guardador de Rebanhos”, no seu discurso poético, torna-se o libertador da ambigüidade divino-demônica. Para Tillich apenas a religião tem esta possibilidade de suportar a ambigüidade divino-demônico, pois só a partir dela é que se pode perguntar pela vida sem ambigüidade. Neste caso uma “leitura” poética libertadora, para superar a clausura do dogma, teria que ser religiosa, a partir de dos temas centrais da teologia. “ O Guardador de Rebanhos” não suporta a ambigüidade, talvez nem o poeta pudesse suportar os próprios pensamentos que o remete à negação para a superação do divino-demônico dos símbolos cristãos.

Em se tratando de uma poética religiosa, mesmo que pela negação, não seria exagero tomar como referência os princípios de “honestidade” e “consagração” de Tillich para tentar compreender a opção pagã de Caeiro. Por um lado, o poeta não pode conter os próprios pensamentos e tenta “endireitar” o que fora “distorcido” pela estrutura do discurso teológico. Ele precisa ser “honesto” com a própria existência. A questão aqui não seria discutir até que ponto Caeiro está tentando elaborar a busca da profundidade do ser e criar condições para um sistema ontológico, como se daria o “conhecimento” neste sistema, “leituras de símbolos”, etc. Caeiro é só um poeta “honesto” com os pensamentos incontidos expostos de forma profética, retomando e ao mesmo tempo tentando preservar um “espaço” definido para os sagrados símbolos cristãos.

Assim os pensamentos são “pastoreados”. O “pastoreio”, tanto dos pensamentos incontidos como das emoções, se articula com a existência e, pela dimensão ambígua da vida, não se encaixa com o “sagrado” permanente, mas com a “angústia” da ausência de religião. Este seria o excesso pelo paradoxo. Para isto há um resgate do pensamento que se eleva para libertar o sagrado do demônico do discurso teológico, mesmo que esta liberdade se dê rumo ao universo do profano. Em outras palavras, os “símbolos” necessitariam ser “resgatados” do demônico. Os que de fato não significam o que poderiam significar (Deus não é pai, Maria não é mulher e o Espírito não é nada), não carecem de resgate. Contudo Jesus, como lógos simbólico da cristologia, precisaria ser trazido “de volta” pelos pensamentos. Ser então libertado do demônico. Fora divinizado do categorial pelo discurso teológico e não pode ser concebido pelo pensamento livre. Assim o pensamento, guardado pelo poeta e sua arte, supera o intramundano, “invade” o divino, resgata o que fora “contaminado” pelo demônico do discurso e o traz de “volta” para ser um anônimo.

Notas Conclusivas

Pelo limite do nosso trabalho, não é possível analisar todo o poema. O Guardador de Rebanhos foi escrito no início do século passado, 1911-1912. Em 1914 Caeiro escreveu sobre o pastor amoroso que perdera o cajado. O pastor amoroso perdeu o cajado, E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta. É a angústia de quem guarda pensamentos e que estão dispersos. Na mesma época, um pouco antes, de “O Guardador de Rebanhos”, encontramos Nietzsche e seu discurso metafórico tentando superar a falta de sustentação do discurso teológico. A época indica que se buscava uma nova forma para se pensar sobre Deus que não fosse no aprisionamento metafísico. Aparentemente não havia saída: ou “Deus morre” ou é “outra coisa”, o que de certa forma podem significar o mesmo. Ou Deus estava morto, ou a dimensão da compreensão humana havia criado um Deus que não era Deus.

Tillich legitima a forma de “resistência” e busca da “verdade” pela criatividade em relação à imposição do dogma, que demonstra ser assim demônico. Divine power lies behind religious doctrines and religius art. But the demonic distortion begins when new insight presses toward the surface nd is trodden down in the name of the dogma, the consagrated truth, or when new styles seek to express the drives of a period and are prevented from doing so in the name of religiously approved forms of expression.

Caeiro, de certa forma, compreendeu o demônico do discurso teológico, tomado como referencial a heteronomia dogmática. Seu papel, certamente profético, não foi o de analisar o problema divino-demônico sob a perspectiva da ambigüidade. Mas com certeza refletiu, na poesia, o desencaixe da liberdade existencial com a heteronomia dogmática. A solução foi o paganismo como uma certa “imposição” decorrente da liberdade do pensamento..

Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, pág. 152 (Poemas Completos de Alberto Caeiro, XXVII)

Fernando Pessoa: Obra poética, pág. xxxiv

Fernando Pessoa: Obra poética, pág. xxxiv

Fernando Pessoa: Obra poética, pág. 182 (Alberto Caeiro/Posfácio)

Fernando Pessoa: Obra poética, pág. xxxiii.

Não é possível considerar o problema do eu centrado no pensamento de Tillich neste trabalho, apenas apontar que se refere à relação com o mundo e as ambigüidades em correlação do ser humano: Man experiences himself as having a world to which he belongs.[...] Man is a fully developed and completely centered self. (Paul Tillich: Systematic Theology (I). Chicago : The University of Chicago , 1953, 3ª impressão, pág. 169/170

Esta é uma questão complexa, pois o “existencial” pode não se referir, e provavelmente não é, a analítica existencial de Heidegger, mas a partir da Lebensphilosophie, que segundo Tillich está presente na filosofia da existência, através de Bérgson, Dilthey e Nietzsche, por exemplo.

Fernando Pessoa: Obra poética, 146 (Poemas Completos de Alberto Caeiro, IX)

Texto de domínio público: http://www.instituto-camoes.pt/escritores/pessoa/guardador.htm, acessado em junho de 2005.

Paul Tillich: Systematic Theology (III). Chicago : James Nisbet & Co. Ltd., 1964, pág. 108

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 110

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 117.

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 76.

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 69

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 62

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 63

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 63

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 64

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 110

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 211

http://www.instituto-camoes.pt/escritores/pessoa/guardador.htm

Paul Tillich: Systematic Theology (III), pág. 113.

Natanael Gabriel da Silva é doutorando em Ciências da Religião pela UMESP, diretor da Faculdade Teológica Batista de Campinas e diretor da Faculdade Teológica Batista de Bauru.

-Correlatio
ISSN 1677-2644

Publicação da Sociedade Paul Tillich do Brasil e do Grupo de Pesquisa Paul Tillich do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo


Fonte: http://www.metodista.br/ppc/correlatio/correlatio08/o-divino-e-o-demonico-em-201co-guardador-de-rebanhos201d-de-alberto-caeiro/

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