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ADIAMENTO
Depois de amanhã, sim, só depois
de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade
objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não,
hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária
para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é
segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me
toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda
a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido
e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria
a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está
bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública
que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje
não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
ÁLVARO DE CAMPOS
(Heterônimo de Fernando Pessoa)
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Álvaro de Campos (1890 - 1935) é
um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando
Pessoa. Este fez uma biografia para cada um dos seus
heterónimos e declarou assim que Álvaro
de Campos : «Nasceu em Tavira, teve uma educação
vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia
estudar engenharia, primeiro mecânica e depois
naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de
onde resultou o Opiário. Agora está aqui
em Lisboa em inactividade.»
Era
um engenheiro de educação inglesa e
origem portuguesa, mas sempre com a sensação
de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo.
Entre
todos os heterónimos, Campos foi o único
a manifestar fases poéticas diferentes ao longo
de sua obra. Houve três fases distintas na sua
obra. Começa sua trajetória como um
decadentista (influenciado pelo Simbolismo), mas logo
adere ao Futurismo: é a chamada Fase Sensacionista,
em que produz, com um estilo assemelhado ao de Walt
Whitman (a quem dedicou um poema, a Saudação
a Walt Whitman), versilibrista, jactante, e com uma
linguagem eufórica onde abundam as onomatopeias,
uma série de poemas de exaltação
do Mundo moderno, do progresso técnico e científico,
da evolução e industrialização
da Humanidade: é muito influenciado por Marinetti,
um dos nomes cimeiros do Futurismo neste período.
Após uma série de desilusões
com a existência, assume uma veia niilista ou
intimismo: é conhecida como Fase Abúlica,
e assemelha-se muito, sobretudo nas temáticas
abordadas, à obra do Pessoa ortónimo:
a desilusão com o Mundo em que vive, a tristeza,
o cansaço («o que há em mim é
sobretudo cansaço», assim começa
um dos seus mais famosos poemas) leva-o a reflectir,
de modo assaz saudosista, sobre a sua infância,
passada na «velha casa»: infância
arquetípica, de uma felicidade plena, é
o contraponto ao seu presente.
(Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre)
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