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Vem sentar-te comigo Lídia,
à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos
enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois
pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca
regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé
do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos
as mãos, porque não vale a pena
cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos
como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem
amores, nem ódios, nem paixões
que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais
aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre
correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos
tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços
e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé
um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos
flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
-
Este momento em que sossegadamente não
cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao
menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás
de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou
te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos,
nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E
se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro
sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória
lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
RICARDO
REIS |
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| O
poema pode dividir-se em três partes lógicas:
1ª.:
Desejo epicurista de fruir o momento presente (1ª.
e 2ª. estrofes):
Mais do que da emoção de contemplar a natureza
(fitemos), a atitude amorosa resulta da interpretação
dela como símbolo de fugacidade, interpretação
que a razão comanda (aprendamos, pensemos) na constante
obsessão do nada que, se por um lado determina
no poeta um desejo de fruir o presente e de aproveitar
o fugaz momento, único bem que nos é dado
possuir, por outro lado reveste o amor de uma gélida
frieza, pelo calculado e pensado sentido que retira toda
a espontaneidade ao mais simples gesto de ternura;
2ª.: Renúncia ao próprio
gozo desse fugaz momento que é a vida (3ª.
a 6ª. estrofes):
É nítido o afrouxar do impulso amoroso,
a tal ponto que, do gozo do momento presente, mais não
fica que uma contida emoção que aos poucos
se anula para terminar numa atitude de quase indiferença
e de irremediável incomunicabilidade (sentados
ao pé um do outro). E mais uma vez essa recusa
é símbolo mais amplo de um desencantado
viver que nega qualquer paixão mais forte e todo
o esforço que se sabe impotente para alterar a
força do destino cruel, numa passividade à
margem da vida, quase fora dela;
3ª.: Explicação dessa
renúncia como única forma de anular o sofrimento
causado pela antevisão da morte (7ª. e 8ª.
estrofes):
Esse ideal de ataraxia que Reis bebeu em Epicuro (e que
não contém outro prazer além da ausência
de dor) é o remédio ilusório para
a obsessão da morte que, no final do poema, ele
antevê e disfarça em eufemísticas
perífrases clássicas, mas que soa ininterruptamente
em Reis como um dobre a finados. E é exactamente
para superar a morte, ou superar-lhe pelo menos o cortejo
de sofrimento e a saudade que a acompanha, que ele opta
por essa vivência atrás definida, que nada
deixe que se lamente ou se deseje. E dizemos remédio
ilusório porque essa superação nos
aparece, apesar de tudo, tingidla de mal disfarçado
sofrimento, que sentimos no adjectivo sombrio, hipálage
que, mais do que o aspecto do barqueiro, nos sugere o
estado de espírito daquele que espera pela morte,
o próprio poeta.
O rio, que sugere passagem, efemeridade e/ou morte e aparece
já na filosofia de Heráclito.
O
"barqueiro sombrio", Caronte, que, na mitologia
grega, transportava as almas dos mortos que tinham sido
incinerados ou enterrados através dos rios infernais
(o Estige ou o Aqueronte), mediante um óbolo (pequena
moeda grega), que a família do defunto Ihe colocava
na boca para pagar a passagem.
O
Fado e os deuses pagãos.
O
enlaçar/desenlaçar das mãos.
As
flores no colo e o seu perfume para sugerir um bem efémero.
A
sombra, para traduzir a morte.
A
frequência, por vezes, aliterante dos sons "v"
e "s", sugestivos de arrastamento que, associados
ao som "ê", contribuem para a acentuação
do tom plangente do texto.
O
ritmo lento, pausado e plangente é sugerido pela
pontuação, pelos advérbios de modo
sossegadamente (duas vezes), silenciosamente, sem desassossegos
grandes, tranquilamente e pelo uso de sons fechados e
nasais.
Palavras
negativas ou de conotações pessimistas:
"A vida passa" (duas vezes) = nada deixa = nunca
regressa = vai; passar = correr; passamos; "sempre
correria" = "sempre iria ter à...";
não (cinco vezes); nada (três vezes); sem
(três vezes); nunca (duas vezes); nem (seis vezes);
"muito longe", "mais longe que os deuses";
sempre (duas vezes utilizada para traduzir a passagem
inexorável do tempo); "Pagãos inocentes
da decadência", "Pagã triste".
A
enumeração: "Sem amores, nem ódios,
nem paixões (...) Nem invejas (...) Nem cuidados...".
A
gradação com assíndeto: "trocar
beijos e abraços e carícias", "...
te arda ou te fira ou te mova".
A
comparação: "passamos como o rio".
As
metáforas do "antes" (a vida) e do "depois"
(a morte) e o papel da memória/lembrança,
na terceira parte do texto.
O
eufemismo (atenuação do grau de violência
ou do carácter trágico duma palavra ou expressão)
está presente na perífrase atrás
mencionada e ainda em "se for sombra antes"
(= se eu morrer antes).
Ricardo
Reis usa, neste poema, o vocativo da segunda pessoa ("Vem
sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio")
associado ao modo imperativo: vem, pega, deixa-as. O uso
da primeira pessoa do plural do presente do conjuntivo
com sentido de imperativo (optativo) fitemos, prendamos,
enlacemos, pensemos, desenlacemos, amemo-nos, colhamos
relaciona-se com a existência de um interlocutor
(Lídia), a quem o discurso é dirigido e
cuja colaboração desvanece o individualismo
de Reis que, assim, procura ultrapassar o negativismo
de Pessoa fechado em si mesmo. Nas duas primeiras partes,
o presente do indicativo aparece, ao lado do gerúndio,
para traduzir a permanência da transitoriedade que
é preciso encarar serenamente: "... a vida
passa e não estamos de mãos enlaçadas";
"...a vida/ Passa e não fica, nada deixa e
nunca regressa,/ Vai para um mar muito longe...";
"... pensando que podíamos..."; "Ouvindo
correr o rio e vendo-o". Na terceira parte do texto,
a antevisão da morte impõe o surgimento
de outros tempos e modos verbais: o futuro do indicativo
- lembrar-te-ás, terei, ser-me-ás; o presente
do conjuntivo - arda, fira, mova; o futuro do conjuntivo
- for, levares.
Fonte:
http://lithis.net/p.php?id=73 |