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10 - 10 - Aqui, Neera, longe




Aqui,
*Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, ó flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E não temos a mão
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de *Averno.

Mas aqui não nos prendem
Mais coisas do que a vida,
Mãos alheias não tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

Não nos sentimos presos
Senão com pensarmos nisso,
Por isso não pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora

Nos torna iguais dos deuses.

2 de Agosto de 1914

RICARDO REIS

*Neera é segundo a mitologia greco-romana, uma ninfa amada pelo Sol ( Heliós), de quem teve 2 filhos.

*Averno - Avernus was an ancient name for a crater near Cumae (Cuma), Italy in the Region of Campania north of Naples. Within the crater is Lake Avernus (Lago d'Averno). It was believed to be the entrance to the underworld, and is portrayed as such in the Aeneid of Virgil. In later times, the word was simply an alternate name for the underworld.

The term Avernus (plural Averni) was also used by ancient naturalists for certain lakes, grottos, and other places which infect the air with poisonous steams or vapors. They were also called mephites. They were said to be frequent in Hungary on account of the abundance of mines therein.


Ricardo Reis (1888 - 1939)
é um dos três heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Nascido na cidade do Porto. Estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente desde 1919, indo viver no Brasil. Era latinista e semi-helenista.

A poesia de Ricardo Reis é constituída com bases em ideias elevadas e odes, ou seja, na poesia de Reis é constante o Neoclassicismo. Para finalizar, podemos concluir que através da intemporalidade das suas preocupações, a angústia da brevidade da vida, a inevitável Morte e a interminável busca de estratégias de limitação do sofrimento que caracteriza a vida humana, Reis tenta iludir o sofrimento resultante da consciência aguda da precariedade da vida.

Temáticas:

Faz o elogio do epicurismo e do estoicismo (busca de uma felicidade relativa, mista de resignação e moderado gozo de prazeres);
Aceita a calma da ordem das coisas;
Sofre com as ameaças do Fatum, da velhice e da Morte;
Vê o rio como uma imagem da vida que passa – efemeridade;
Considera a infância a idade ideal;
Defende o ideal de uma vida passiva e silenciosa;
Preconiza a carência das ideias dogmáticas e filosóficas como meio de manter-se puro e sossegado;
Opõe o paganismo ao cristianismo;
Estilo/ Linguagem:

Características da estética clássica;

Vocabulário: óbolo, barqueiro, sombra e rio;
Mitologia: Fatum;
Sintaxe da frase: hipérbato.
Verbos no Gerúndio, Imperativo, Conjuntivo.

(Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre)

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