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SAGA
DE ASAS
Novembro,
estação das chuvas, e as garças já
retornaram, para nidificação, àquelas árvores
junto ao velho rio Sapucaí. Centenas delas, diferentes
tamanhos, cores, e espécies ( branca-grande, vaqueira
ou boiadeira, socó-dorminhoco ou garça-cinzenta...).
Algumas,
como as brancas grandes, exibindo suas egretas, penachos especiais
no dorso usados para o ritual de corte.
É
a época da reprodução. No ninhal já
se vêem as estruturas de gravetos e galhos secos, forradas
de capim. Logo as fêmeas postarão os ovos verde-azulados,
e os pais os chocarão e alimentarão os filhotes
que vingarem.
Alvoroçadas
com minha presença em seus domínios, emitem sons
roucos, entrecortados, e brandem as poderosas asas quando de
mim se afastam. Porém, jamais me atacam.
Quando
pela primeira vez fotografei a colônia dessas aves , em
meados de dezembro do ano anterior , os filhotes já estavam
em seus ninhos, recém-nascidos, de uma beleza grotesca,
plumas escassas , o bico enorme, desproporcional à estatura
do corpo. Cerca de um mês mais tarde, em minha segunda
visita, já eram adolescentes, com plumagem mais definida,
em pleno ensaio para a rara beleza que portariam quando adultas.
Em
Abril deste ano , por ali passando, não mais as vi. No
outono, após as águas de março, baixando
o nível das águas do Sapucaí, as várzeas
da região do ninhal secam , dificultando para as garças
encontrarem suas presas - plâncton, pequenos peixes e
anfíbios - naquelas lagoas marginais. Em sua natureza
migrante, as brancas grandes voam, então, para regiões
de águas fartas, abundantes, como nas proximidades do
imenso lago de Furnas.
As
exóticas vaqueiras, insetívoras, rumam aos pastos
em busca dos insetos do gado, abrigando-se em outros pousios.
E do milagre dos instintivos rituais da vida, daquele clamor
de sons e asas, restarão, após partirem, ali junto
ao rio, tão somente algumas penas, fezes branco-acinzentadas
e o silêncio dos ninhos vazios.
Agora,
mais uma vez , em novembro, ali estão elas, os filhotes
do ano anterior já são aves absolutas e plenas
que, dando continuidade ao ciclo natural, postarão e
chocarão seus ovos, revitalizando o local com o grasnar
coletivo, o vôo elegante, as delicadas poses e movimentos
de bailarinas.
Eu
as aguardei durante longos meses para revisitá-las agora
na estação das chuvas, meu coração
como se atendesse a um chamado para registrar a renovação
da vida em sua mais encantada alegria. Mas até quando
as verei, agrupando-se, vindas algumas de longe, impulsionadas
por um misterioso código biológico que lhes assegura
um santuário de procriação precisamente
naquele sítio?
Contemplando-as
na tarde, consortes , amantes em plena, festiva cumplicidade,
ciente de que logo partirão, em incansável saga
de asas, para cuidar de outras conquistas, lembro-me dos versos
do poeta irlandês, Yeats, referindo-se aos seus selvagens
cisnes de Coole:
‘...
Entre que juncos edificarão sua morada,
Junto a que lago, junto a que charco,
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar
E descobrir que voando se foram?’
Fernando Campanella, 22 de novembro de 2008
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