Entre
a realidade e o delírio, buscando o social enquanto sua alma
a engolfava, Clarice escreveu um livro singular. A 'Hora da Estrela'
é um romance sobre o desamparo a que, apesar da linguagem, todos
estamos entregues.
EXCERTOS:
“Escrevo
neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo
com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no
entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá
quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula.
Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei
eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história
é verdadeira embora inventada – , que cada um a reconheça
em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza
de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar
coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado
essencial.”
***
"Tudo
no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a
outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história
havia a pré-história da pré-história e havia
o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que
o universo jamais começou. Deus é o mundo. A verdade é
sempre um contato interior e inexplicável..."
***
"É.Eu
me acostumo mas não amanso.Por Deus! eu me dou melhor com os
bichos do que com gente.Quando vejo o meu cavalo livre e solto no prado
tenho vontade de encostar meu rosto no seu vigoroso e aveludado pescoço
e contar-lhe minha vida. E quando acaricio a cabeça de meu cão
sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique"
***
"
Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia
muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma
pergunta”.
***
"A
verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A
minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente
interior e nao tem uma só palavra que a signifique. Meu coração
se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último
ou primeiro pulsar." (p.11)
***
'"É.Eu
me acostumo mas não amanso.Por Deus! eu me dou melhor com os
bichos do que com gente.Quando vejo o meu cavalo livre e solto no prado
tenho vontade de encostar meu rosto no seu vigoroso e aveludado pescoço
e contar-lhe minha vida.E quando acaricio a cabeça de meu cão
sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique"
***
Escrevo
por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há
lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado
e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não
fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente
todos os dias" (...) Enquanto eu tiver perguntas e não houver
resposta continuarei a escrever. Pensar é um ato. Sentir é
um fato".
***
"Estou procurando danadamente achar nessa existência pelo
menos um topázio de esplendor. Até o fim talvez o deslumbre,
ainda não sei, mas tenho esperança."
(AHora da Estrela - p.43)
***
"Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém
não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por
falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é
assim porque é assim."
***
"...irei até onde o ar termina, irei até onde a grande
ventania se solta uivando, irei até onde o vácuo faz uma
curva, irei até aonde meu fôlego me levar." p.90
***
"O melhor negócio é ainda o seguinte: não
morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu
que tanto preciso" p.92
***
"O definível está me cansando um pouco. Prefiro
a verdade que há no prenúncio."
(A Hora da Estrela - p.33)
***
"Que se há-de fazer com a verdade
de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só."
(A Hora da Estrela - p.44)
***
"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas
continuarei a escrever."
***
"A eternidade é o estado das coisas neste momento."
***
"Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há
lugar para mim na terra dos homens."
***
"Não se pode dar uma prova de existência do que é
mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando."
***
"Quem não é um acaso na vida?"
***
"Aliás - descubro eu agora - eu também não
faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria."
***
"Eu vou ter saudade de mim quando morrer." p.58
***
"Era supersónica de vida." p.68
***
"Uma pessoa grávida de futuro." p.84
***
É.
Eu me acostumo mas não amanso."
(A Hora da Estrela - p.34)
***
"Aliás - descubro eu agora - eu também não
faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria."
***
"- Não sei bem o que sou, me acho um pouco...de quê?...Quer
dizer não sei bem quem eu sou."
***
'Ele
se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe:
- E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?
- Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de
idéia.
- E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
- Macabéa.
- Maca – o quê?
- Bea, foi ela obrigada a completar.
- Me desculpe mas até parece doença, doença de
pele.
- Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por
promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um
ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome,
eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que
ninguém tem mas parece que deu certo - parou um instante retomando
o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor - pois como
o senhor vê eu vinguei… pois é…
- Também no sertão da Paraíba promessa é
questão de grande dívida de honra.'
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