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'A HORA DA ESTRELA' -

Entre a realidade e o delírio, buscando o social enquanto sua alma a engolfava, Clarice escreveu um livro singular. A 'Hora da Estrela' é um romance sobre o desamparo a que, apesar da linguagem, todos estamos entregues.

 

EXCERTOS:

“Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – , que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.”

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"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável..."

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"É.Eu me acostumo mas não amanso.Por Deus! eu me dou melhor com os bichos do que com gente.Quando vejo o meu cavalo livre e solto no prado tenho vontade de encostar meu rosto no seu vigoroso e aveludado pescoço e contar-lhe minha vida. E quando acaricio a cabeça de meu cão sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique"

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" Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta”.

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"A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e nao tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar." (p.11)

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'"É.Eu me acostumo mas não amanso.Por Deus! eu me dou melhor com os bichos do que com gente.Quando vejo o meu cavalo livre e solto no prado tenho vontade de encostar meu rosto no seu vigoroso e aveludado pescoço e contar-lhe minha vida.E quando acaricio a cabeça de meu cão sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique"

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Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias" (...) Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Pensar é um ato. Sentir é um fato".

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"Estou procurando danadamente achar nessa existência pelo menos um topázio de esplendor. Até o fim talvez o deslumbre, ainda não sei, mas tenho esperança."
(AHora da Estrela - p.43)

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"Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim."

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"...irei até onde o ar termina, irei até onde a grande ventania se solta uivando, irei até onde o vácuo faz uma curva, irei até aonde meu fôlego me levar." p.90

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"O melhor negócio é ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso" p.92

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"O definível está me cansando um pouco. Prefiro a verdade que há no prenúncio."
(A Hora da Estrela - p.33)

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"Que se há-de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só."
(A Hora da Estrela - p.44)

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"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever."

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"A eternidade é o estado das coisas neste momento."

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"Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens."

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"Não se pode dar uma prova de existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando."

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"Quem não é um acaso na vida?"

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"Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria."

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"Eu vou ter saudade de mim quando morrer." p.58

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"Era supersónica de vida." p.68


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"Uma pessoa grávida de futuro." p.84


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É. Eu me acostumo mas não amanso."
(A Hora da Estrela - p.34)


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"Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria."

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"- Não sei bem o que sou, me acho um pouco...de quê?...Quer dizer não sei bem quem eu sou."

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'Ele se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe:
- E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?
- Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de idéia.
- E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
- Macabéa.
- Maca – o quê?
- Bea, foi ela obrigada a completar.
- Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.
- Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo - parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor - pois como o senhor vê eu vinguei… pois é…
- Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra.'

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