POEMAS: 1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8 - 9 - 10


DEIXAI-ME ANDAR por muito tempo
neste vosso enorme vestíbulo,
quando os lacaios não existam
e a luz do lustre, que é tão plácida
envolva em mãos de brando sono
a alva, pregueada escadaria,
límpido vestido sem dono.

Quero mirar minhas distâncias
nos espelhos de cada lado,
e ouvir o sonhos das resinas
nas curvas cômodas lustrosas
como uns estranhos contrabaixos
que, em vez de música, dão rosas.
Deixai meu passo amortecido
ir e vir pelo branco e preto
mármore calmo, que outros pisam
sem ver... – levados pela pressa
de alcançar a festa, nas salas
onde perfis, sedas e risos
copos de oscilantes topázios,
criam ruidosos paraísos.

Deixai-me aqui, livre e sozinha,
diante das portas encantadas
que anulam os jardins da noite.

Pelo balaústre, florescem
lírios verdes, que nunca morrem
nem nunca viveram. E a abstrata
luz inviolável dos espelho
dorme sem uma só presença
de lábios, perguntas, olhares,
agasalhada no silencio
de seus sucessivos lugares.

Neste vosso vestíbulo,
vou-me esquecendo do meu nome,
vou desconhecendo meu rosto,
vou-me perdendo e libertando
em pura matéria divina.
Nas teias de sonho que teço
- quem fico sendo, em meu limite,
sem ver meu fim nem meu começo?

Deixai-me neste solitário
recinto, onde tudo ressoa
como se atrás do mundo houvesse
uns alarmados moradores
de olhos eternamente abertos.
Deixai-me escutar seus clamores
que são como os de meus desertos.

No desnudo mármore, o tempo
deixa o rosto perseverante.
Pela transparência dos vidros,
vejo caminhos sem muralhas.
O ar é de apelo e confidência.
Tudo dissolve seus segredos
Entre todos os convidados,
eu só guardo a sombra da festa:
pequena bússola em meus dedos.

Cecília Meireles
In: ‘Retrato Natural’

(...) “ No poema ‘Enorme Vestíbulo’, de Cecília Meireles, a imagem “vestíbulo’ simboliza o limiar de entrada em outra dimensão da vida, determinando a alteridade, alcançada pelo eu-lírico. O espaço que o eu-lírico vislumbra do “vestíbulo” é o dos seres que “nunca morrem nem nunca viveram”, das formas abstratas, livres da deterioração temporal .” (...)

No vestíbulo, a luz dos espelhos, “abstrata e enviolável”, adormece esquecida da “presença de lábios”, “perguntas”, “olhares”, imersa no silêncio.
Na tradição imaginária da humanidade, o espelho simboliza aquilo que reflete a verdade, a qual pode ser proveniente de uma ordem superior. Símbolo da sabedoria e do conhecimento, o espelho diviniza o “vestíbulo” apaga a “história” daqueles que ali assomam, conforme se pode constatar no seguinte excerto:

“ Neste vosso longo vestíbulo
Vou-me esquecendo do meu nome,
vou desconhecendo meu rosto,
vou me perdendo e libertando
em pura matéria divina.
Nas teias de sonho que teço
- quem fico sendo, em meu limite,
sem ver meu fim nem meu começo?
...
No desnudo mármore, o tempo
deixa o rosto perseverante.


( ‘Poesia e imaginário’ Ana Maria Lisboa de Mel )
__

[...]O extraordinário e estranho “O Enorme Vestíbulo”, do livro ‘Retrato Natural’, em que detendo-se no pórtico de uma festa, o sujeito poético passa a desafiar sua interrogações sobre o destino humano e a fruir” a sombra” d evento, até os versos magistrais:

‘ Nas teias de sonho que teço
-quem fico sendo, em meu limite,
Sem ver meu fim nem começo?’

(‘Pensamento e “lirismo puro” na poesia de Cecília Meireles – Por Leila Vilas Boas

Previous | Home | Next

Design by LaDerzi´s Gallery © Copyright - 2009-2011

Share