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DEIXAI-ME ANDAR por muito tempo
neste vosso enorme vestíbulo,
quando os lacaios não existam
e a luz do lustre, que é tão plácida
envolva em mãos de brando sono
a alva, pregueada escadaria,
límpido vestido sem dono.
Quero
mirar minhas distâncias
nos espelhos de cada lado,
e ouvir o sonhos das resinas
nas curvas cômodas lustrosas
como uns estranhos contrabaixos
que, em vez de música, dão rosas.
Deixai meu passo amortecido
ir e vir pelo branco e preto
mármore calmo, que outros pisam
sem ver... – levados pela pressa
de alcançar a festa, nas salas
onde perfis, sedas e risos
copos de oscilantes topázios,
criam ruidosos paraísos.
Deixai-me
aqui, livre e sozinha,
diante das portas encantadas
que anulam os jardins da noite.
Pelo
balaústre, florescem
lírios verdes, que nunca morrem
nem nunca viveram. E a abstrata
luz inviolável dos espelho
dorme sem uma só presença
de lábios, perguntas, olhares,
agasalhada no silencio
de seus sucessivos lugares.
Neste
vosso vestíbulo,
vou-me esquecendo do meu nome,
vou desconhecendo meu rosto,
vou-me perdendo e libertando
em pura matéria divina.
Nas teias de sonho que teço
- quem fico sendo, em meu limite,
sem ver meu fim nem meu começo?
Deixai-me
neste solitário
recinto, onde tudo ressoa
como se atrás do mundo houvesse
uns alarmados moradores
de olhos eternamente abertos.
Deixai-me escutar seus clamores
que são como os de meus desertos.
No
desnudo mármore, o tempo
deixa o rosto perseverante.
Pela transparência dos vidros,
vejo caminhos sem muralhas.
O ar é de apelo e confidência.
Tudo dissolve seus segredos
Entre todos os convidados,
eu só guardo a sombra da festa:
pequena bússola em meus dedos.
Cecília
Meireles
In: ‘Retrato Natural’
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