
The Little Mermaid (statue) located in Copenhagen, Denmark |
No
dia 23 de agosto de 1913 foi inaugurada em Copenhague, na
Dinamarca, a estátua 'A Pequena Sereia', baseada na
história de Hans Christian Anderson.
Essa
estátua foi danificada várias vezes, mas conseguiu
sobreviver e se tornou o
mais importante monumento da cidade.
Em Copenhague, no lugar preferido pelo povo para os seus passeios,
existia uma figura de bronze, obra do escultor Eriksen, representando
uma pequena sereia pousada num rochedo. Com uma das mãos
apoiada na pedra e a outra abandonada no regaço, ela
contemplava, na sua casta nudez, este mundo incrível
dos homens. Por trás dela perfilavam-se belos navios
brancos e armações de altos guindastes. Ela
estava ali, entre o céu, a terra e o mar e era uma
das mais delicadas expressões de amor que se podia
ter oferecido àquele gênio da bondade que se
chamou Hans Christian Andersen, cujas histórias causaram
a felicidade de milhões de crianças que as ouviram,
no mundo inteiro, e certamente a dos adultos que as contaram.
A
sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei
seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó.
Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham
permissão para subir à tona da água e
contemplar o mundo dos homens. As irmãs não
se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula
aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas
três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma,
enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A
sereiazinha desejou possuir também uma alma assim.
Mas era difícil; segundo o que lhe cotara a avó,
para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais
que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse.
(Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar
a linda história, mas na certeza que todos os leitores
a conhecem.)
Então
a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio,
e, para vir a encontra-lo, mais tarde, no seu palácio,
pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda
em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua
voz, e resignando-se à mudez.
No
palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer,
se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada
ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará...
Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma
alma imortal! E também já não poderá
voltar ao palácio submarino, não tornará
à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol
e se transformará em simples espuma. A não ser
que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam
o navio do príncipe, tenha a coragem de mata-lo, antes
do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua
cauda de sereia, não morrerá com o primeiro
raio de sol, voltará para a sua família (Sem
a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos
anos de vida ...)
Como
todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu
belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia,
murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa,
atirou a faca ao mar, lançou-se também às
ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não
sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade
de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas
falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem
uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas
do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio
esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os
homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão
tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu
lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as
filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas
boas obras, talvez em menos de trezentos anos.
Sensíveis
à maravilhosa invenção de Andersen, os
dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à
sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa
de deixar a sua condição de sereia para possuir
a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se
a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas
ações.
Pois
neste triste mundo dos homens, onde sofre a lama imortal,
veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze
! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto,
de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela
que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples
vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido
prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans
Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado
uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo
pelos que outrora não o entendiam. Mas, não,
embora degolada, a sereiazinha não morreu; há
um século que seu figura invisível paira pelo
céu, distribuindo benefícios pela humanidade.
Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu
alcançar aquela alma imortal que pretendia.
(Folha
[De S. Paulo], 5 de maio de 1964)
Crônicas
de viagem (3) - Editora Nova Fronteira, p.279-281